Blog de André Abreu/Direto de Boston

Crise energética brasileira

Bastou um pequeno e pobre país sul-americano fazer leves escaramuças internas com respingos além-fronteira e o Brasil teve exposta sua fraquíssima política energética. O que chamamos de crise do gás boliviano é, na verdade, a crise do sistema energético brasileiro. O problema é de fácil compreensão e simples projeção.
É certo que o governo poderá segurar o repasse de possíveis aumentos tarifários no fornecimento do gás boliviano, mas é certo também que tão logo passem as eleições presidenciais, seus efeitos serão transferidos ao bolso da população. É previsível o acontecimento de algo semelhante ao plano cruzado. Quem viveu aquele momento, lembra que no dia 16 de novembro de 1986, um dia após a eleição que colocou os aliados do governo em praticamente todos os governos estaduais, o plano foi extinto e a conta repassada ao povo. Agora, espera-se que os malefícios financeiros da atitude boliviana não interfiram no bolso do consumidor brasileiro. Mas só até o dia das eleições, pois no dia seguinte será possível a repetição de 1986, até porque os homens do governo atual carecem de credibilidade e confiança.
Quando o Brasil enterrou tubulação extensa para transportar o gás boliviano, nas gestões Itamar e Fernando Henrique, não pensou nas conseqüências possíveis. Em 1976, ao apresentarem o mesmo projeto a Ernesto Geisel para implantação já naquela época, o general presidente perguntou: “E, se um dia a Bolívia fechar a torneirinha, o que eu faço, mando o exército abrir?” Ante a negativa, outras alternativas foram procuradas. Bem verdade é que o governo militar também cometeu enorme erro estratégico ao construir a Usina de Itaipu em parceria com o Paraguai. Hoje, parte da energia elétrica vinda de lá é comprada do vizinho país, que é dono de metade da Usina – a propósito, o nome oficial é “Itaipu Binacional” e seu slogan “A Maior Hidrelétrica do Mundo”. Imagine-se um governo paraguaio que resolva fechar a torneirinha da eletricidade e nos deixar no escuro! O país pára, literalmente.
Pois bem, mesmo que o Paraguai não nos importune, o repasse de acréscimos tarifários no gás fará o consumidor modificar seu “modus vivendi”. Aquecedores a gás serão substituídos por chuveiros elétricos, fogões industriais a gás por fogões elétricos e fornos que se alimentam do gás boliviano serão trocados por outros, elétricos evidentemente.
No sul catarinense, Criciúma é o maior pólo brasileiro de produtos cerâmicos, cuja matriz energética está calcada no gás boliviano, que é o combustível dos seus fornos. O empresariado local está apreensivo e não vê alternativas imediatas. Isso porque, fazendo mais um fácil exercício de raciocínio, deduz-se que a transferência de consumo do gás para a eletricidade poderá levar o país a outro apagão, do qual temos triste lembrança.
O Brasil depende desastrosamente da Bolívia para o abastecimento de gás e está carente de energia elétrica, por absoluta incapacidade produtiva, pois não houve investimento suficiente no momento oportuno. Um acelerado aumento na demanda de eletricidade vai repetir desconfortos financeiros e sociais já vividos.

Antônio Linus Rech

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